Magali Simone de Oliveira
Por trás dos gráficos
Sempre detestei matemática. Os números sempre me deixaram com a impressão de burrice. Tabelas, gráficos só ajudam a agravar minha asma. Fico sem ar. Como não consigo decifrá-los, sinto-os como entidades que devoram minha pele, minha alma, meus ossos.
Mas Mariáh, embora volta e meia brigue com os números, dia desses, para me convencer de que precisava de uma renovada no guarda-roupas, me entregou um papelzinho pequeno. Olhei sem entender.
- Que desenhos são esses? , perguntei sem entender as várias carinhas que ela me apresentava.
- Não é desse lado. Vira. Do outro lado, tem uma tabela.
A tal tabela era composta por três colunas de duas linhas, cada uma. Na primeira, a seguinte inscrição: roupas usáveis: 14. Na segunda coluna: não usáveis: 11 , na terceira o total de roupas: 25.
Um pouco abaixo, uma outra tabela nomeada como “Roupas não usáveis sempre”. Abaixo, duas novas colunas. Na primeira: “roupas de festa: 4 e na segunda : roupas de ficar em casa:7.
Olhei confusa.
- Mariáh, não entendi, filha. O que é isso?
- É um gráfico. Mostra a situação das minhas blusas e como preciso renovar o meu guarda-roupas.
- Mas não estou entendendo. Pelo menos 11 não são usáveis sempre e 14 são usáveis sempre. Quantas não são usáveis? E quantas roupas você precisa de fato? Quantas pode doar?
- Tudo é usável se você não tem outra roupa, né, mãe? Eu não sei quantas preciso. Só sei que preciso comprar roupas novas...Estou fazendo um grande sacrifício porque estou usando roupas justas. Você sabe que não gosto de roupas justas.
Verifiquei que ao lado do suposto gráfico, Mariáh havia esboçado algumas regras de três.
- Que contas são essas?
- Tentei fazer umas contas, com esses dados, mas não consegui chegar a nenhuma conclusão. Acho que errei nas contas.
- Sei, disse desconfiada. Na dúvida, pensei, melhor dar um desconto de 70% na necessidade de renovação do guarda-roupas de Mariáh.
- Não, Mariáh, não. Outro dia, te dei uma blusa de frio que está larga para mim, que sou o dobro de você. Como essa blusa pode estar justa?
- Ela só fica larga quando eu a coloco em cima de outra blusa. Quando coloco em cima da pele fica justa, tentou explicar.
- ???????
Aumento o desconto do chororô de 70% para 90%.
- Olha, filha, nesses dias frios ficou claro que nós duas precisamos de casacos mais grossos. Estou sem grana hoje (novidade)! Mas na semana que vem compro dois novos agasalhos para você e um outro para mim, ok?
- Tá , mais nos próximos meses você vai dar uma boa renovada no meu guarda-roupas né?
- Tudo bem - pensei, imaginando que seria uma ótima forma de finalizar a discussão
- E um dia vai reformar o meu quarto...
- Tudo bem.
Dei a discussão por terminada mas os números voltaram a me perturbar. Não sei quanto a vocês, mas meus sonhos sempre chegam com juros embutidos. Apesar de Mariáh sonhar em se tornar professora de história, diante do suposto gráfico e dos argumentos evasivos, fiquei com a impressão de que ela tem jeito para economia e administração de empresas.
Frequentemente, os argumentos, tabelas e gráficos dos economistas, dos administradores e dos funcionários do departamento financeiro, assim como suas contas de porcentagem parecem servir apenas para enrolar e iludir os incautos, como eu. Tenho dificuldade em desmentir os números. Eles me agridem e me calam. Parecem ser indiscutíveis. Diante dos números, sinto-me frágil. Meus argumentos parecem sempre birra de criança.
Qualquer que seja o argumento apresentado tenho sempre a impressão que defendem a posição dos poderosos, nunca servem para explicar, por exemplo, porque meu salário não aumenta, porque não tenho ainda o padrão de vida que almejo, porque uma dívida de R$ 500, se parcelada, pode triplicar.
Não sei se quero que Mariáh aprenda a esquadrinhar o inesquadrinhável. Porque tabelas e gráficos geralmente reduzem pessoas a números sem sonhos, sem nomes. Isso me parece terrível, mas aprendendo tal ciência talvez minha filha aprenda a investir no mercado de ações, aprenda a transformar seus sonhos em dinheiro. Terá, assim, um futuro melhor que o meu.
Ou não. Talvez os autores das tabelas e dos gráficos não consigam ficar livres das pessoas por trás dos nomes. E tenham pesadelos horríveis com números gritando clemência. Isso seria pior. Seria horrível. Afasto esse pensamento da minha cabeça. Começo nos casacos que comprarei para Mariáh. E torço para que ela aprenda a fazer gráficos em que os números não sejam capazes de calar o sonho das pessoas. Pelo contrário, faça-as cada vez mais cantar mais alto.

Magali Simone de Oliveira é mestre em Letras pela UFSJ, jornalista, professora universitária, poeta, contista de textos não publicados, dona de casa e mãe de uma adolescente linda chamada Carolina.
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