Regina Helena Alves Silva
Meu primeiro Dia das Mães
Eu prometi escrever sobre o Dia das Mães, mas não tem sido uma tarefa fácil. Eu ainda estou tentando entender como foi esse dia.
Toda vez que eu pensava em dias das mães vinha sempre a questão dessas datas terem ficado muito comerciais e perdido seu sentido. No meu caso, o dia das mães nos últimos anos significava a fila imensa do restaurante, as horas de espera com uma mãe de mais de 80 anos sentada em alguma cadeira precária, em lugares escolhidos por ela e que são os restaurantes mais cheios de BH. Neste ano, a primeira coisa que ficou diferente foi isso: ninguém foi pra restaurante. Por causa dos nossos filhos.
Significava também uma falta surda, um vazio por quem já se foi e era também mãe pra mim. Todos dizem que eu tive três mães, a que me gerou, minha avó que me criou e minha tia que foi minha referência de vida.
Nos últimos anos de minha avó, ela ficava sentadinha em restaurantes escolhidos por minha mãe, esperando horas pra poder comer. Além disso, o Dia das Mães era a luta da compra de presentes... O que comprar? Os shoppings lotados e eu atrás do que a minha mãe pedia, e o sempre eterno erro no presente, sentido quando ele era aberto e a expressão de quem o ganhou era de "ah... obrigada".
Agora que sou mãe, esse dia se aproximou de outra maneira. Acordei – eu sempre acordo primeiro – e o Pedro já estava se mexendo na cama. Eu e ele tomamos um iogurte e começamos a fazer um café da manhã especial pra todos. Mas ficou tudo muito corrido e atrapalhado, como somos eu e meu filho.
Passei a vida ouvindo falar de um tal de instinto maternal. Eu não tinha, não era mãe. Agora eu deveria, necessariamente, tê-lo, já que está perto de fazer um ano que sou mãe.
Mas não sei ainda o que significa isso. Deve ser o que me aconteceu hoje. Pus os meninos pra dormir e fui lavar as vasilhas do jantar. De repente, algo estava errado. Fui ao quarto das crianças e minha pequena de 2 anos e 4 meses tinha pulado do berço e ido dormir na cama do irmão. Pulou de um berço bem alto, com a grade levantada.
Um tempinho antes do Dia das Mães teve na escola dos meus filhos a chamada Festa da Família. Eu nem sabia que existia isso. Além de ser uma mãe-velha, na minha pequena família a “crianças mais nova” já tem 32 anos.
Achei legal a festa, mas foi nela que entendi como é interessante essa condição que eu chamo de mãe-velha: na mesa ao lado da nossa se sentaram a família de uma coleguinha da minha filha. Eu olhei pra lá e vi uma pessoa conhecida que veio até mim. Ela falou: “Lembra de mim? Fui sua colega de sala na sociologia.
Ela é a mãe da mãe da coleguinha da minha filha.”
É isso, minhas amigas e conhecidas têm netos da idade dos meus filhos.
Assim, as fichas começaram a cair e eu comecei a me sentir mãe.
A escola mandou presentes. Isso foi uma coisa muito engraçada porque os dois vieram nos dar os presentes. A Duda não ligou muito pra isso e o Pedro estava nervoso para a gente ver logo o que ele tinha feito.
Mas tem algumas coisas interessantes nessa história toda. Nossa filha trouxe um cartão com uma foto dela e um desenho que ela fez especialmente pra gente. Ela está aprendendo a colocar a cor dentro dos limites de um desenho.
Mas ela trouxe um presente e nós somos duas.
O Pedro trouxe dois presentes. Eram CDs das músicas preferidas das mães, pediram a todas duas preferências e gravaram um CD. O Pedro desenhou duas capas pra gente. Uma capa escrito “presente da mãe Lena”: ele desenhou uma mãe baixinha, gordinha dando a mão a ele. Uma capa escrito “presente da mãe Silvia”: uma mãe alta e magra dando a mão a ele.
Mas uma coisa eu achei muito estranha nisto tudo: nós duas só escolhemos uma música cada uma, as outras escolheram duas.
Engraçado como as pessoas nos descobrem diferentes, mas não conseguem ainda realizar o que é essa diferença.
Resolvemos colocar o CD, que tinha músicas muito relacionadas umas com as outras, a maioria eram músicas que têm a ver com a gente. Dançamos muito com o CD, nós quatro. Era legal ver os dois dançando com a gente. Duda ficou com uma cara desconfiada de que as suas mães estavam um pouco doidas, mas riu muito da gente dançando.
Mas duas músicas de uma mãe eram diferentes, eram músicas religiosas. Engraçado quando somos nós quem temos que entender a diferença do outro. A escola que escolhemos para os nossos filhos já era minha velha conhecida e pelo perfil do alunado e nunca imaginei que fosse encontrar uma parte tão diferente da diferença: ou seja, pais evangélicos. Mas existem e o filho deles é o melhor amigo do meu filho.
O almoço foi na casa da minha irmã, a única que tinha tido filhos na minha família e, a mais nova dela já passou dos 30. Isso quer dizer que há muitos anos não ficávamos junto com crianças. No almoço, os meninos nos deram os presentes que nós, as mães, compramos pra nós mesmas. Um dos presentes que a Silvia escolheu pros meninos me darem foi um “kit coisinhas” do Galo. Agora, posso tomar meu café expresso num copinho sensacional do “glorioso Clube Atlético Mineiro”.
Viemos pra casa e a Duda dormiu no carro. O jogo do Atlético já estava no segundo tempo e meu filho que grita Galo na janela resolveu ver o final do jogo comigo. Ficamos abraçados no sofá, torcendo enlouquecidamente. Fiquei pensando em algo que meu pai dizia: ser atleticano está no sangue. Nesta família já nascemos atleticanos.
Se meu pai estivesse vivo, provavelmente ficaria apavorado e ia querer saber pra qual time os pais dos meus filhos torcem. Isso porque um deles pode ser cruzeirense e vai que as crianças têm isso no sangue.
Mas meus filhos, eu e o Galo somos a prova concreta de que não se nasce predestinado a nada, se nasce aberto às possibilidades do encontro.
Tem sido muito legal acompanhar esse encontro e pensar em como as crianças vão ficando parecidas com a gente.
Um dia, há muito tempo, cheguei a casa de um casal de amigos que tinham adotado dois irmãos: um menino e uma menina. O pai estava com um livro em inglês nas mãos e me mostrou um artigo: “Olha, Lena, aqui tá dizendo que as crianças aprendem a ficar como os pais, que elas não nascem assim”.
Entendi que a angústia dele era não ter filhos como os outros, não ter filhos que ficassem parecidos com ele.
Foi isso que aprendi no meu primeiro Dia das Mães. Meus filhos não nasceram de nossos corpos, mas nasceram de nosso desejo de ser mãe. Eles, a cada dia, ficam mais parecidos com a gente: nas falas, nos gestos, na maneira de rir, de jogar a cabeça, comer. O Pedro come lentamente como eu e a Duda, se deixar, termina antes da Silvia.
Eles imitam a gente, mas vão ficando parecidos nas coisas com as quais se identificam, nas referências que já conseguem decodificar.
Em meio a tanta diferença, que eles têm e terão que enfrentar, a tantos preconceitos e intolerâncias, é muito bom ver que eles e nós somos mães e filhos. Neste momento, todos os coleguinhas dos nossos filhos entenderam que eles têm duas mães e que eles são diferentes. Embora sempre nos vejam juntas na escola, só agora os outros meninos entenderam a diferença que meus filhos têm deles. Meu Pedro se lembra da primeira família, conta algumas histórias de sua vida lá. Nunca saberemos se reais ou não, mas pra ele são. Ele agora diz “a outra casa onde morei”, “a outra casa do meu pai e da minha mãe”. Um dia perguntei a ele se tinha saudades. Ele me respondeu que , mas que não queria voltar pra lá.
Sempre me impressiono com a maturidade desse meu menino de quase quatro anos.
Nesta primeira semana do primeiro Dia das Mães, fiquei o tempo todo pensando no que escrever nesta coluna. E pensar tanto me fez elaborar um pouco esse “o que é ser mãe”. Logo que minhas crianças chegaram, eles eram estranhos (mas as mães biológicas dizem o mesmo de seus filhos recém-nascidos) e nós não sabíamos muito bem como lidar com eles. Não sabíamos do que gostavam de comer, qual a roupa mais gostavam (mesmo porque eles vem do abrigo apenas com a roupa do corpo), se eram alérgicos a alguma coisa (minha Duda é mega alérgica), se tinham doenças na família, se roncavam (meu Pedro ronca). Não sabíamos nada além da “história oficial”, que consta da ficha da Vara de Família.
Hoje eu já digo: a Duda é alérgica como eu e a nossa família; o Pedro é chato pra comer como sua tia Andrea era quando pequena. A Duda é vaidosa como a mãe Silvia e o Pedro fica absorto como ela também, pode estourar uma bomba do lado deles, que nem me movem.
Assim estamos virando mães, como vão virando mães todas as mães.
Meu filho, depois do Dia das Mães, passou a me chamar de “mamãe fofinha”. Ele também pega na mão da irmã e aperta falando: Duda você é durinha, igual a mãe Silvia, a mãe Lena é fofinha. E se aninha na minha barriga que ele já disse ser muito melhor que da mãe Silvia. E eu fico igual boba, achando lindo meu filho me chamar de gordinha.

Regina Helena Alves Silva é professora da UFMG. Graduada em História e Ciências Sociais, com mestrado em Ciência Política e doutorado em História Social. Coordenadora do Centro de Convergência de Novas Mídias-UFMG, atua nas áreas de história social da cultura, comunicação e práticas sociais, novas tecnologias e cultura digital, culturas urbanas e formas de participação social. Atualmente, é mãe em tempo quase integral de Pedro e Maria Eduarda.
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