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Magali Simone de Oliveira

Que nem criança

Do alto de seus 13 anos, Amanda Ox está nervosa. Desde o início da semana, a mãe, Camila Ox, vetou sua entrada no Facebook. Ela está em casa, junto com Mariáh, se arrumando para um encontro de semideusas, na praça da Liberdade. Enquanto não ficam prontas, ofereço um lanche. Não consigo não ouvir os lamentos de Amanda Ox.
- Você acredita Mariáh? A chata da minha mãe não deixa eu dormir depois de 11h30! Diz que eu tenho que acordar cedo para fazer a aula de reforço de matemática, estudar, sair para andar um pouco, viver. Ela está me tratando como uma criança... Não é porque eu acordo 10h da manhã que eu não estou vivendo...

- Mas a que horas você dorme?
- Uai. Tipo meia-noite e meia, às vezes uma hora, duas horas da manhã. Não tem como dormir enquanto o sono não chega. Fica parecendo que a gente é criancinha, pirralho, sei lá! Como se a gente fosse neném e tivesse que ir para cama cedo, para acordar cedo e fazer tudo cedo...
- Eu também acho isso horrível. Minha mãe me faz dormir às 11h da noite no máximo. Fica com cara feia quando eu peço para dormir mais tarde. Só libera dormir mais tarde quando é final de semana... Uma chatice, ouviu, mãe?
Ergo as sobrancelhas. Como fui chamada ao papo, dou minha opinião.
- Acho que vocês duas estão erradas e que Camila está muito certa, ouviu Amanda? Olha só, ninguém dorme quando quer. Todos temos horários. Vocês são novas, têm muito a fazer. Podem estudar, podem malhar, podem estudar, podem aprender a fazer tarefas domésticas, a pintar, podem até fazer trabalhos voluntários. O que ficar fazendo na cama até às 10h, 10h30?
- Uai, a gente fica dormindo... A gente ainda não trabalha, a gente não tem responsabilidade! Porque não podemos viver a nossa vida do jeito que a gente quer?
- Porque ninguém faz só o que quer. A vida não é um sonho. Enquanto estamos acordados temos que lutar para fazer com que os nossos sonhos se realizem - observo.
- Mas se a gente não dorme, como vai sonhar? É preciso sonhar para termos pelo que lutar, não é não? - rebate Amanda.
- Quais são seus sonhos então? - pergunto, curiosa.
Amanda e Mariáh pensam um pouco.
- Eu não me lembro dos meus sonhos, mãe. Você sabe. Quando eu lembro é porque foram pesadelos.
- Eu também não me lembro. Mas queria muito poder decidir a que horas vou dormir e a que horas vou acordar. Não sou mais criança, diz levantando-se da mesa e dirigindo-se para o quarto aonde vai, de novo, se olhar no espelho. A fantasia de semideusa deve ficar perfeita.
Fico olhando Amanda e Mariáh se arrumando. Quando crianças, se fantasiavam de princesas. Sempre tiveram problemas com sua própria identidade. Eu encontrava Amanda na rua:
- Ei, Amanda. Tudo bem?
- Olha, tia Magali, meu nome hoje não é Amanda. É Alice no País das Maravilhas. Quer ser o Chapeleiro Maluco?
- Não, Amanda, Alice. Hoje estou com pressa - dizia, tentando não rir do excesso de imaginação de minha amiguinha.
O mesmo acontecia com Mariáh.
- Bom dia Mariáh. Vamos acordar, filha?
- Eu não sou a Mariáh, mãe. Eu sou a Branca de Neve.
- Ah, tá.
Volto ao presente e vejo as duas se fantasiando de semideusas. Agora, estão seguras que não são mais crianças (embora estejam longe de serem adultas), mas antigos hábitos não vão embora tão cedo. Ninguém se torna adulto de um dia para o outro. E elas continuam se fantasiando dos personagens que admiram. Como quando faziam quando tinham três, quatro anos.
Mas há uma diferença. Agora, elas estão aprendendo a ter suas opiniões e a se rebelar. Mas ainda não sabem que crescer é aceitar pequenos sacrifícios como dormir e acordar cedo, aprender a fazer escolhas que não levem em conta só o prazer, mas a necessidade.
É preciso aprender a comer menos chocolate e comer mais verduras, menos balas e mais frutas, menos refrigerante para tomar mais suco. É preciso encontrar tempo para estudar, para trabalhar, para ficar com a família, com os amigos e também para cuidar de si próprios.
É algo tão difícil que – embora há mais de vinte anos tenha 1,56m - ainda estou aprendendo a crescer. Ainda tenho vontade de dormir e acordar tarde, mas a necessidade de realizar coisas me expulsa da cama mais cedo, muito mais cedo do que eu gostaria.
Crescer dói. Crescer cansa. Às vezes tenho a sensação de que não estou crescendo. Pareço só estar me tornando mais chata. Chata mesmo. Mas insisto. Olho para as minhas duas semideusas e sorrio. Não temos que ter pressa. Talvez o segredo das maravilhas de Alice esteja na sua capacidade de esticar e de diminuir. Talvez só crescendo e diminuindo a gente possa uma dia viver no País das Maravilhas com que tanto sonhamos...
 

magali simone, bh da meninada, crônicas

Magali Simone de Oliveira é mestre em Letras pela UFSJ, jornalista, professora universitária, poeta, contista de textos não publicados, dona de casa e mãe de uma adolescente linda chamada Carolina.

 

* Este é um artigo autoral, que reflete as opiniões do colunista e não do veículo. O website BH DA MENINADA não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações, conceitos ou opiniões do (a) autor (a) ou por eventuais prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso das informações contidas no artigo.

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