Cristina Silveira
Mamãe, quero crescer
Após ler o lindo livro infantil Pequena grande Tina, com texto de Patricia Auerbach e ilustrações do estilista Ronaldo Fraga, resolvi escrever sobre esse tema. O livro, lançado em Belo Horizonte no último sábado, conta a história de uma menininha chamada Tina e fala do seu desejo de crescer.
Existe uma fase no desenvolvimento infantil que a criança manifesta o desejo de “querer crescer”, ou seja, quer imitar o adulto e descobre o mundo das “ pessoas grandes”. É a fase que a menina começa a experimentar os sapatos e as bijuterias da mãe e BRINCA de ser adulto. Têm até o desejo de frequentar lugares que os adultos frequentam e procuram entender um pouco mais esse mundo concreto em que estão inseridas.
Se considerarmos que os pais ou responsáveis são os modelos dessas crianças para a sua inserção no mundo social e real, entenderemos o desejo de imitação delas. IMITAÇÃO, eu disse. Porque imitação é algo necessário e imprescindível ao aprendizado humano. Brincando de imitar os pais ou os adultos que as cercam, as crianças aprendem a se colocar no mundo, atuar e interagir socialmente. E esse processo vem acompanhado da ludicidade, da brincadeira, da alegria e da satisfação.
A imitação é uma forma de aprendizagem observacional que leva ao “desenvolvimento de tradições, e no fim de contas à nossa cultura”. Permite a transferência de informação, comportamentos e costumes entre indivíduos e através das gerações sem necessidade de herança genética. Ou seja, é a forma básica de aprendizagem de uma criança pequena. Através da imitação, a criança APRENDE a ser um ser social.
Daí percebemos a importância que os adultos tem no desenvolvimento das crianças, porque afinal de contas, eles são os modelos da futura geração de adolescentes e jovens, que vem por aí.
Atenção! Eu falei de imitação e não de adultização!
A diferença básica é que a imitação é necessária e benéfica ao desenvolvimento infantil. O mesmo não acontece com a adultização.
Adultização é um processo onde as crianças são imputadas a assumir responsabilidades além da sua maturidade. São levadas a disputar posições em determinadas atividades, buscando múltiplas competências. Desprotegidas, recebem de forma direta a influência de uma sociedade que exige seres perfeitos, sentindo o peso das exigências de “gente grande” como a falta de dinheiro ou o problema do desemprego na família. Assumem como seus hábitos e costumes dos adultos e muitas vezes já nem sentem alegria pela infância.
Muitas vezes os próprios responsáveis pela criança contribuem para o seu processo de adultização. Vestir uma criança e produzi-la como adulto é deslocá-la da fase em que ela deveria estar e jogá-la no universo adulto. Munir uma criança de sexualidade é lhe dar uma arma carregada que ela não saberá usar, até porque passa longe da criança o sentido erótico por trás do que ela veste ou usa. A sua maturidade psicológica certamente não acompanhará o seu comportamento e sua aparência adultizada. Tal fato pode causar transtornos ansiosos e pânico que podem culminar em depressão. Ou então, podem repercutir na adolescência, através de comportamentos agressivos e antissociais, ou o contrário, gerando adolescentes inseguros e infantilizados, podendo culminar no uso de drogas.
Portanto, imitar no sentido lúdico é prazeroso. Mas se isto vira um processo imposto, contínuo, onde a criança perde a infância para se tornar de fato um mini-adulto é adoecedor.
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Fica a dica!

Cristina Silveira é psicanalista, psicopedagoga e educadora,
especialista em neuropsicopedagogia, arte-terapia e psicologia do trabalho. Tem formação em educação inclusiva (TDAH, autismo, Síndrome de Down) e atualização em artes plásticas e saúde mental. Idealizadora do Movimento Resgatando a Infância.
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