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Magali Simone de Oliveira

Reescrevendo livros, reiventando você

Os livros que marcaram a minha vida foram definitivos. Como deuses, os autores matavam ídolos, estraçalhavam sonhos e me deixavam perplexa quando algo de diferente acontecia com meus personagens preferidos. Triste, muito triste, eu me limitava a procurar uma mensagem em meio ao caos. Algo ali devia fazer sentido.  Como acontece hoje quando algum amigo tem seu sonho esmagado pela realidade, eu sofria, mas aceitava. Não tinha como reclamar. Não tinha a quem me queixar. Sentia-me impotente. Nunca pensei em escrever a um autor, perguntar mais sobre o personagem, pedir informações sobre os vácuos de silêncio de um livro. Mas, no advento da web, os jovens escolhem divergir. Pedem explicações dos autores e mudam o final da história. Estão ficando muito adultos, eu acho.

Mariáh e Gustavo, colega da escola, são íntimos dos autores de seus livros preferidos. Embora nunca os tenham visto pessoalmente, ou mesmo trocado e-mails, falam dos escritores como se fossem próximos, chamando-os por apelidos.. Tamanha intimidade os permite questionar. Acabo de ler o livro “A culpa é das Estrelas”, que relata o drama de adolescentes com câncer. Não vou “espoilar” o livro, como diz Mariáh, mas tenho que confessar que chorei a cada página. Em todas as fases da minha vida nunca entendi a morte de crianças e adolescentes. É por demais divino aceitar tal sofrimento. Eu não estou pronta. Aos 42 anos não estou pronta. Aos 70 não estarei. Quem está?

Mas Mariáh e Gustavo inventaram um jeito novo de lidar com suas “perdas literárias”. Escrevem versões novas para os finais que não gostaram, tentam reinventar o universo de seus personagens adequando-os ao que acreditam ser o melhor. Penso que aceitar e sofrer como a Magali adolescente fazia era um exercício válido para a maturidade, afinal de contas, nem todos os sonhos se realizam no final. Muitas vezes, o que nos resta fazer é aceitar.

A escrita de uma nova versão, no entanto, é revolucionária. É uma forma de rearranjar no interior todos os sentimentos bagunçados pelas tragédias fictícias ou reais. Talvez ajude esses meninos a fazer uma autoanalise. A mudar o que os machuca. Os personagens escritos por eles têm os mesmos finais dos originais. Mas esses finais trazem um significado diferente.  Ao se tornarem coautores, os leitores teen imprimem o sentido que eles conseguiram entender, o que aceitam que possa acontecer. Um sentido que cabe em uma vida de 13, de14 anos ou  de 42 anos.

Pergunto a Mariáh o porquê dessa escrita.

- Eu achei a história dessa autora o máximo. Gostei mesmo. Então quero que continue. Como ela não vai escrever, invento eu a minha versão da história dela. A gente não pode depender dos autores.

Invejo essa independência, essa rebeldia. Nada precisa ser do jeito que é. Você acha que faltou um personagem? Invente. A mocinha morre no final? Então explique essa morte do seu jeito. Vai ficar menos doloroso? Talvez. Pelo menos você está tentando resolver essa dor dentro de você. Não está aceitando ser vítima. Está fazendo alguma coisa.

Lendo os textos desses meninos fico pensando se não seria bom eu mesma tentar me lembrar dos meus livros preferidos. Porque eu gostava ou gosto deles? O que eu poderia mudar? O que eu poderia dizer a seus autores? Iria agradecê-los ou xingá-los? Dizer algo do tipo: “Sabe que eu passei a minha vida tentando ser igual à fulana do seu livro e quando eu consegui vi que eu não queria ser igual a ela”? Eu diria algo assim?

E na minha vida? Eu poderia dar novas versões ou inventar sentidos para trechos repletos de silêncios e perguntas sem respostas da minha juventude, do meu dia-a-dia hoje? Talvez aceitar seja o melhor. Ou o melhor seja se rebelar e tentar pintar o mundo das cores que você mais gosta. Talvez não seja realmente importante fazer isso.  Ou talvez refletir sobre isso seja o primeiro passo para você decidir que personagem vai ser no mundo real.

magali simone, bh da meninada, crônicas

Magali Simone de Oliveira é mestre em Letras pela UFSJ, jornalista, professora universitária, poeta, contista de textos não publicados, dona de casa e mãe de uma adolescente linda chamada Carolina.

 

* Este é um artigo autoral, que reflete as opiniões do colunista e não do veículo. O website BH DA MENINADA não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações, conceitos ou opiniões do (a) autor (a) ou por eventuais prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso das informações contidas no artigo.

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