Regina Helena Alves Silva
Será que ele é? Será que ela é? Ou, será que ele vai ser? Será que ela vai ser?
Toda vez que sou entrevistada, uma pergunta é infalível: Como vocês vão fazer para que seus filhos não percam a referência masculina? Para quem não sabe, meus filhos têm duas mães: eu e minha companheira. Todos querem saber como criaremos nossos filhos, já que não temos uma referência masculina em casa.
Outro dia, fiquei pensando: na verdade, querem nos perguntar como faremos para criar duas crianças sem o pai? Essa questão me levou a refletir sobre como se confunde referência masculina com referência paterna. Sempre respondo que é impossível criar alguma criança neste nosso mundo sem referência masculina. Um mundo tão masculino...
Mas me preocupa a imensa confusão que as pessoas fazem. Querem dizer masculino ou paterno? Se preocupam com crianças sem pais ou com crianças com duas mães? Quando resolvi escrever sobre isso, comecei a pensar: afinal, o que é que as pessoas chamam de referência masculina?
(Hoje, existem longos e importantes estudos sobre gênero. Para aqueles que se interessam pela discussão, tenho como sugestão o texto da historiadora Joan Scott que pode ser acessado neste link.)
Interessante é ver a atitude das pessoas que só me perguntam isso com relação ao meu filho. Não dizem nada sobre a minha filha. Ora, pois, se o que chamam de referência masculina é assim tão importante, ela também não deveria saber o que é isso? Ou, quando me fazem essa pergunta, estão querendo saber como nós, as duas mães, faremos para performar um corpo masculino em meu filho? Ora, meu filho é do sexo masculino. Ele é homem.
É tudo muito confuso. Na verdade, as pessoas não sabem muito bem o que estão me perguntando. Será que elas acham que vamos vestir nosso filho com vestidos? Que vamos fazê-lo ir ao banheiro e fazer xixi sentado? Que não vamos ensiná-lo a trocar uma lâmpada? Ou que ele não vai jogar futebol? Que não vai ao estádio torcer pelo Galo?
Na verdade, o que está por detrás da pergunta é o preconceito de pensar que casais homoafetivos vão formar filhos homossexuais. Ora, aí a coisa fica muito estranha, porque nós, as mães, carregamos em nós orientações masculinas e paternas: nossos pais eram heterossexuais.
A questão do masculino/feminino carrega questões muito mais profundas do que ter um pai em casa ou não.
Isso nos leva a outra parte do que querem saber que é: como criar filhos sem um pai?
Ora, isso a grande maioria das mulheres no Brasil e em vários países do mundo sabe muito bem como fazer. Elas não têm parceiros em casa. Seus filhos, muitas vezes, sequer são reconhecidos por aqueles que os geraram. Muitos de nós fomos e somos criados sem um pai em casa e muitos mais ainda sem nem saber quem é seu pai.
Ainda estamos atrelados a uma normatização social antiga do que significa uma família. Enquanto isso, a vida nos mostra múltiplas outras formas de ser família ou de estar juntos em um núcleo afetivo. A frase que inicia o texto acima tem a chave dessa discussão: “Aqueles que se propõem a codificar os sentidos das palavras lutam por uma causa perdida, porque as palavras, como as ideias e as coisas que elas significam, têm uma história."
Estamos em um mundo completamente diferente daquele que cunhou os significados de masculino e feminino e de família, que são tão usados quando nos interrogam a respeito de nossos filhos. Meus filhos vieram de outra família (com padrasto e mãe), as referências que carregam dela são a fome, a violência, o abandono e o medo. Eles acordam de noite chorando, eles se assustam com muitas coisas, eles gritam dormindo. Isso vão carregar consigo a vida inteira: suas referências serão sempre múltiplas e diversas, mas, a partir do momento em que vieram viver conosco, uma certeza eles já têm: a de que suas referências serão sempre respeitadas por nós.
As referências de gênero, sexo, raça, classe e muitas outras estarão no mundo junto conosco. A de ter um pequeno núcleo afetivo será de nós quatro, a de ter um entorno afetivo desse núcleo será sempre das nossas famílias e dos muitos amigos (formato atual de dizer amigos e amigas) que temos, todos eles fundamentais, solidários, amorosos e presentes.

Regina Helena Alves Silva é professora da UFMG. Graduada em História e Ciências Sociais, com mestrado em Ciência Política e doutorado em História Social. Coordenadora do Centro de Convergência de Novas Mídias-UFMG, atua nas áreas de história social da cultura, comunicação e práticas sociais, novas tecnologias e cultura digital, culturas urbanas e formas de participação social. Atualmente, é mãe em tempo quase integral de Pedro e Maria Eduarda.
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