top of page

Magali Simone de Oliveira

Roboteando com Ed

Mariah digita sempre perguntas para o Robô Ed. Tornou-se um hábito. Ele é um dos alienígenas que existem dentro da web. Muitos adolescentes conversam com o robô Ed. Há um site, não me pergunte o nome, onde mora o tal robô.  Descobri a nova amizade outro dia, quando ela tentava perguntar para ele como deixar seu cabelo mais sedoso.
Como acontece no mundo dos adultos, a conversa não rendia. Fiquei quieta espiando ela perguntava a tal receita para deixar o cabelo sedoso. Ele não ouvia. Respondia apenas:
-Eu não tenho cabelos. Vamos conversar sobre sustentabilidade.
E Mariáh insistia:
-Tudo bem você ser careca, seu robô chato. Eu preciso de uma receita para o meu cabelo ficar bom.
E o robô:
-Eu não sou chato. Eu não tenho cabelos. Vamos falar sobre sustentabilidade.
Com o tempo, Mariáh começou a fazer ameaças:
-Eu vou embora e não vou falar sobre sustentabilidade. Vou mandar um vírus de computador para você. Para que serve um robô que só fala de sustentabilidade? Eu quero saber do meu cabelo!!!!!!!!!!!! Por Zeus! (disse ela com sua mania de semideusa).
-Zeus é o deus dos deuses romanos, disse Ed, dando uma dentro depois de queimar alguns bytes.
-Isso mesmo. Pegou no tranco, mãe! Esse Ed sabe tudo! Ele é demais Agora ele vai me dar todas as respostas que eu pedir. Animada, Mariáh digitou:
-Robô Ed. Tudo bem? Agora, me fala como melhorar o meu cabelo?O que eu passo nele?
-Eu não tenho cabelos. Vamos falar de sustentabilidade?
Sem pestanejar, Mariáh começa a digitar impropérios. Falo brava para ela parar. Como exigir de uma máquina o segredo que boa parte das mulheres do mundo todo quer saber; o que eu faço para o meu cabelo ficar bom? Cansada de assistir a esse espetáculo de falta de comunicação vou para o quarto dormir. Mas não durmo.
O diálogo entre adolescentes e máquina é muitas vezes mudo. Penso amarga que o diálogo entre pessoas também é assim. Quantas vezes iniciamos uma amizade, um relacionamento buscando algo que o outro, como o robô Ed, não pode nos dar? Buscamos amor e o outro só quer sexo? Abrimos a janela em busca de luz e o outro só se esconde nas sombras? Buscamos convivência e recebemos distância, medo de se relacionar, solidão em troca? E, ficamos iludidos como Mariáh, esperando uma receita para dar brilho ao cabelo de alguém que só sabe falar de sustentabilidade? Não. Não adianta ficar brava, não adianta ameaçar mandar vírus por computador! O melhor é romper a conexão e procurar outro site. Penso que é esse o conselho que darei a Mariáh quando me levantar no outro dia.
Mas me arrependo em tempo. Não é rompendo a conexão que se melhora a qualidade da comunicação. Mariáh é um ser humano. Não um robô. Não é feita de códigos binários. Não se baseia em cálculos matemáticos. É feita de imprecisões, de tentativas e erros. Diálogo é um aprendizado. Um dolorido aprendizado.
 Quantas vezes sou mal interpretada? Quantas vezes penso estar dando conselhos ou orientações e sou acusada de chata, autoritária, ou intrometida? Quantas vezes o meu sorriso irrita, ao invés de alegrar?
Creio que irei aconselhá-la a ser mais doce. Não brigue com Ed. Se ele não responder sobre seu cabelo, pergunte-lhe sobre sustentabilidade. Veja o que ele tem a lhe dizer, aprenda com ele, lhe diga coisas boas, agradeça-o.
E depois procure outros sites para aprender a melhorar o seu cabelo. Mas não o despreze. Porque nem todos têm as respostas. Nem todos têm coragem de perguntar. Aprenda com Ed a dialogar.  

magali simone, bh da meninada, crônicas

Magali Simone de Oliveira é mestre em Letras pela UFSJ, jornalista, professora universitária, poeta, contista de textos não publicados, dona de casa e mãe de uma adolescente linda chamada Carolina.

 

* Este é um artigo autoral, que reflete as opiniões do colunista e não do veículo. O website BH DA MENINADA não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações, conceitos ou opiniões do (a) autor (a) ou por eventuais prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso das informações contidas no artigo.

© 2012 by Daniela Mata Machado Tavares. Todos os direitos reservados

contato@bhdameninada.com

bottom of page