Regina Helena Alves Silva
O Sítio do Picapau *
Tem pouco mais de um ano que escuto esta pergunta, frequentemente, logo que as pessoas conhecem minha filha: “Onde você a encontrou?”. No começo, eu não entendia o sentido da pergunta. Ficava olhando pra pessoa e dizia: Como assim, onde a encontrei?
Depois de um tempo, lentamente, fui entendendo a conotação de surpresa contida na frase. A surpresa era pelo fato de a minha filha não corresponder ao estereótipo que as pessoas têm para as crianças adotadas. Já falei disso em colunas anteriores: minha filha é branca e loura. Há um tempo, um cara me perguntou: "É loura ou galega?" Mais uma vez, fiquei perplexa.
Um dia, foi tão acintosa a pergunta, que veio acompanhada da insinuação de que eu “achei” minha filha em algum lugar que não os abrigos, e, portanto, queriam saber o que eu tinha feito para “garantir” uma filha branca.
Na última vez que me perguntaram, respondi: Vocês acham que crianças para a adoção ficam expostas em prateleiras, como em um supermercado?
Como este país é estranho e profundamente racista! As pessoas que me perguntam isso ignoram solenemente meu filho. E quando eu digo que ele também é meu filho, logo completam: mas não são irmãos, né?
Já comentei um pouco disso, mas nesse fim de semana as coisas foram um pouco diferentes.
Foi um fim de semana como não tínhamos desde a chegada das crianças. Fomos ao sítio. Temos um sitio num distrito de Ouro Preto, que compramos há uns cinco anos, logo depois que Sílvia veio de São Paulo para morar comigo. É um lugar privilegiado, com muita água, cachoeira, muitas árvores, montanhas e uma vista sensacional.
No sítio, tem um caseiro que eu e um amigo, dono das terras ao lado, dividimos. Airton é o nome dele. Uma pessoa com a qual eu e muitos dos meus amigos aprendemos muito.
Airton diz a todos que é “renovado”, que antes era um nada, um pecador, que bebia tanto que vivia debaixo das bananeiras. Um dia, segundo ele, Deus o tirou de lá e agora ele é outra pessoa. Não conheci Airton na sua fase “não-renovada”. Já o conheci longe das bananeiras e da bebida. Ele é daqueles que nasceu na roça, aprendeu a “assentar tijolos” e, quando cresceu - fez 14 anos -, foi para a cidade trabalhar de pedreiro. Com a vida que teve, acabou voltando para a roça e pra debaixo da bananeira.
Apesar de ser o pastor local, ele sempre teve um profundo respeito por mim e pela Sílvia e sempre soube que somos um casal. Nunca, em nenhum momento, fez nenhum comentário, nos olhou de forma estranha ou fez o sinal da cruz pra “afastar o cão”. Ele e sua família sempre nos trataram da melhor maneira possível. Não da maneira de patrão-empregado, mas da maneira do respeito de um pelo outro, por mais diferentes que sejamos. E assim foi quando avisamos que iríamos adotar duas crianças. Desde que as crianças chegaram, não tínhamos conseguido ir ao sítio. Mas no último domingo meus filhos conheceram Airton e sua família.
Tenho um pouco de receio desses encontros e do que eles podem causar a meus filhos. Como já disse, também aqui no meu prédio muita gente pode suportar morar no mesmo lugar que um casal de mulheres, mas não consegue pensar que agora temos filhos. Por isso, não entram no elevador junto com a gente. Por mim, podem subir de escada, não subir, não descer, podem fazer o que quiserem, desde que não maltratem meus filhos.
Então, voltemos ao sítio. Chegamos e as crianças ficaram completamente enlouquecidas com tanto mato, pedras, água e liberdade. Diferente dos lugares para os quais já viajamos, eles entenderam quase que automaticamente que aquele pedaço era deles. Saíram correndo, brincando e ralando os joelhos de todas as formas que conseguiram.
O encontro com Airton e sua esposa foi muito interessante porque eles ficaram muito felizes de verem os “bebês”. Pegaram no colo, mostraram os animais (temos um bode e uma cabra que está para parir). Depois veio a Sara (irmã do Airton) e seus três filhos.
Foi a primeira vez que não vi nenhum tipo de distinção entre meus filhos. Nenhum deles perguntou onde encontrei a Duda. Ninguém fez referência a serem irmãos ou não.
Quando conversava com Airton, ele me perguntou sobre o que mudou, como estava a nossa vida e o que tinha mudado depois da chegada das crianças. Eu comecei a contar toda a história e, num dado momento, ele me perguntou porque vários casais queriam só a Duda e não o Pedro. Eu disse a ele: Uai, porque as pessoas querem meninas e a Duda é branca. O Pedro eles acham que é “moreno” de “cabelinho ruim”.
Airton olhou para mim com a cara mais espantado do mundo e, passando a mão em seu braço, perguntou: "Quer dizer que se eu estivesse em um abrigo ninguém ia me querer? Eu ia ficar lá?"
Nesse momento, decidi que ia dar continuidade à construção da casa do sítio, que tinha parado com a chegada das crianças. Esse é um bom lugar pra fazer parte da vida deles.
* Quando dissemos ao Pedro que íamos ao sitio, na mesma hora tudo virou uma viagem ao Sítio do Picapau.

Regina Helena Alves Silva é professora da UFMG. Graduada em História e Ciências Sociais, com mestrado em Ciência Política e doutorado em História Social. Coordenadora do Centro de Convergência de Novas Mídias-UFMG, atua nas áreas de história social da cultura, comunicação e práticas sociais, novas tecnologias e cultura digital, culturas urbanas e formas de participação social. Atualmente, é mãe em tempo quase integral de Pedro e Maria Eduarda.
* Este é um artigo autoral, que reflete as opiniões do colunista e não do veículo. O website BH DA MENINADA não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações, conceitos ou opiniões do (a) autor (a) ou por eventuais prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso das informações contidas no artigo.
© 2012 by Daniela Mata Machado Tavares. Todos os direitos reservados