Magali Simone de Oliveira
Sobre passados e futuros
- Estou cansada do futuro - desabafa Mariáh, em mais uma de suas crises.
Ouço a frase sem entender o fundamento.
- Filha, o futuro ainda não chegou. Como você pode estar cansada de alguma coisa que não conhece, que ainda não chegou, que pode, inclusive, não existir...
- Justamente por isso mesmo. O futuro não chegou ainda, mas está sempre chegando. A gente vive pensando no futuro, mas ele não pensa na gente. Se pensasse, chegava mais rápido.
- ???? - pergunto, sem dizer nada, com a minha cara do tipo não sei se choro ou rio.
- Pensa bem. A minha vida, por exemplo. É toda feita de futuro. Eu tenho que estudar para ter um futuro melhor. Eu tenho que me alimentar bem e fazer exercícios para, no futuro, não ficar doente. Tudo o que eu faço agora é para o futuro, entendeu?
- Não entendi, Mariáh. Quando você estuda não adquire conhecimentos hoje? Não fica mais sabida? Então, isso é o presente na sua vida.
- Mas eu não uso equação na minha vida hoje. Eu não sou engenheira. O que fazer com raciocínios de desenho geométrico? Eu nem sei se vou ser engenheira... - argumentou a adolescente.
- Esse conhecimento que você adquire hoje vai ajudando você a compreender melhor o mundo, filha. Eu tenho horror de matemática, mal sei fazer regra de três, mas acredito que o esforço feito para conseguir desenvolver esse tipo de raciocínio te torna apta a desenvolver outras linhas de pensamento, descobrir outros caminhos do pensar. É como se fosse uma academia de neurônios. À medida que você “malha” seu cérebro se torna mais “sarado”.
- Mas olha aí o futuro de novo. Eu malho os neurônios hoje para que eles fiquem “sarados” amanhã. Por que o futuro não pode chegar antes?
- Como assim?
- Antes de eu malhar os neurônios eles já ficam sarados. Se fosse assim, eu não ia gastar meu tempo com essas coisas para o futuro. Ia gastar o meu tempo com o presente. Se os meus neurônios já estivessem sarados, em vez de estudar desenho geométrico, eu lia ler os livros que gosto. Melhor: se meu corpo já fosse sarado, eu não ia para a academia, não ia fazer dieta. Podia gastar meu tempo e minha energia com coisa mais importante.
Fiquei tentada a concordar. Mas bateu um medo.
- E se o seu corpo e seus neurônios nunca ficassem “sarados”? E se eles não pudessem ser exercitados com ginástica e com equações?
- ????? - Agora ela me olhou com a cara de interrogação que eu conheço há quase 14 anos.
- E se as pessoas já nascessem do jeito que tinham que ser e não pudessem ser melhoradas? Porque se você não precisasse malhar o corpo ou o cérebro, será que eles poderiam ser modificados? Ai não teria o que fazer filha! Se o futuro andasse de braços dados com o presente, as coisas já viriam prontas. Nada poderia ser modificado. O corpo não evoluiria, o sentimento não progrediria, o pensamento se estagnaria.
- Mas é muito chato ter que esperar as coisas acontecerem! Eu não tenho paciência!
Pensei como o mundo era lento há vinte anos. Do alto dos meus 18, 19 anos eu perdia um tempão datilografando um texto. Dependendo do número de erros tinha que fazer tudo de novo. E não tinha tanta pressa assim. Os ponteiros do relógio dançavam lentamente pela vida. Não havia e-mails, redes sociais. As respostas vinham a seu tempo. Palavras como estresse e ansiedade eram inofensivas à saúde. Não era como hoje quando as duas palavras agem como vírus disseminando o mal pela sociedade.
Aconselhei Mariáh a se sentir feliz, muito feliz com esse excesso de futuro. Vez por outra, sinto um “excesso de passado” na minha vida. Como se as experiências negativas, as frustrações me paralisassem. Como se elas me ameaçassem:
- Você já viveu isso! Sabe o que vai acontecer. Se proteja dessa ilusão!
E aí, sinto que o meu passado, devora o meu presente com as minhas certezas, com as minhas convicções, com os meus dogmas.
- Voa Mariáh. Se abrace às asas do futuro. Só Cronos, com sua ferocidade de pai devorador de filhos, é um sábio. Se construirmos o futuro no presente é porque caminhamos rumo ao desconhecido, ao que nos resta. O hoje foi ruim, você está destroçado? Suas experiências o estilhaçaram? Então, espere o amanhã.
É clichê dizer, mas o sol mais radiante costuma brilhar depois de uma tempestade devastadora. O que seria da flor se a semente insistisse em se fechar em suas certezas e dogmas? Quisera eu sofrer com o excesso de futuro. Para o bem ou para o mal, só o futuro pode nos salvar!

Magali Simone de Oliveira é mestre em Letras pela UFSJ, jornalista, professora universitária, poeta, contista de textos não publicados, dona de casa e mãe de uma adolescente linda chamada Carolina.
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