Magali Simone de Oliveira
Sobre semideuses e narcisos
Foi de uma hora para outra. Quando procurei os olhos da minha filha percebi que eles estavam um pouco acima dos meus. Tive medo de conferir, mas não deu para não reconhecer: Mariáh finalmente está mais alta do que os meus 1,56m. O feito não é nenhuma coisa do outro mundo, uma vez que pelo menos 70% das pessoas que conheço é mais alta que eu, boa parte bem mais alta mesmo. Meu ex-bebê entrou para o time.
Fingi braveza, embora estivesse esbanjando orgulho.
- Quem mandou você ficar mais alta do que eu?
E, ela com cara de menina levada, flagrada fazendo arte:
- Há muito tempo estou mais alta que você, disse vitoriosa.
Aí, destemperei, porque nenhuma mãe gosta de ser flagrada mostrando desconhecimento sobre o que acontece com seus filhos embaixo de seu nariz:
- Não. Não estava. Há um mês fomos à médica e você tinha só 1,53m. Agora, de uma hora para outra deve estar com 1,59m ou 1.60m. Não é justo. Você cresceu uns sete centímetros sem que eu acompanhasse, sem sequer pedir permissão!, brinquei.
Ela riu vitoriosa. Eu também, por dentro, embora estivesse fazendo cara de brava.
O crescimento dos adolescentes, penso eu, é uma nova gestação às avessas. Uma gestação fora do útero. Agora, sem o charme da barriga, sem os cuidados que recebemos como grávidas, acompanhamos – como podemos- o desenvolvimento desses seres que não são mais bochechudos, que às vezes têm espinhas, que contrariados ainda pedem colo e que enfrentam tantos monstros imaginários a fim de decidirem quem de fato serão.
Com o cordão umbilical cortado há anos, sinto que eles e nós “mães” estamos um pouco mais desprotegidos. Também quero colo por perceber que as minhas escolhas hoje afetam todos os dias, às vezes mais, às vezes menos, o futuro da minha filha. Culpa é uma palavra que faz parte do meu dia-a-dia.
No meio da semana, ela me pergunta se pode ir a um encontro de “semi-deuses”.
- Como assim, minha filha? Pirou?
- É um encontro dos leitores de Percy Jackson. Dos que gostam mesmo das histórias deles. Vai acontecer no Parque Ecológico da Pampulha.
- Ah, não sei não. Que horas vai acontecer?
- Vai acontecer às 12h, mas eu não sei se vou gostar de ir.
- Mas espera aí, se você não sabe se quer ir, porque está pedindo autorização para ir?
- É que Amanda Ox vai e eu queria passar o fim de semana com ela. Mas eu não sei se vou gostar.
- Por que logo você, que adora Percy Jackson, não gostaria de ir a esse encontro?
- Porque eu não conheço todas as sete pessoas que confirmaram presença no Facebook.
- Pô, mais só sete pessoas?
- Sim. Sete pessoas, mais eu e Amanda Ox.
- Mas com um grupo de sete pessoas é fácil se enturmar e fazer amigos.
- Não é não, mãe. Eu não sei como eles são. Eu tenho dificuldade em fazer amigos.
- Mas por que você tem dificuldade em fazer amigos?
- Porque eu não sou como as outras adolescentes. Não sou tão burra que só fique pensando em namorado, em One Direction e essas coisas. Eu sou diferente.
- Então, você é mais inteligente só porque ainda não pensa em namorados e não gosta do One Direction?
- É.
- Mariáh, você precisa rever seus conceitos de inteligência. Tudo bem que não queira namorar agora. Eu acho que realmente não é a hora. Mas optar por namorar não é uma escolha burra. É uma escolha que pode ser super legal. Em um relacionamento, você aprende muita coisa sobre si mesma, acaba crescendo afetivamente e como pessoa. E o One Direction não é tão ruim assim.
- Ah, você não sabe o que está falando! As minhas amigas que namoram são todas chatas! Só sabem falar do namorado e das coisas dos namorados. Elas se acham melhores do que todo mundo que não namora.
- E você se achando mais inteligente do que elas? Não está se achando melhor do que as meninas que gostam de One Direction ou que namoram? Não está se achando superior? Melhor porque supostamente seria mais inteligente?
- Ah, mãe, pára! Você não me entende! - disse, me deixando sozinha.
É fato. Muitos dos tímidos não se sentem menores. Se sentem melhores, diferentes, inacessíveis. O sentimento de superioridade, assim como o de inferioridade cria castas de semi-deuses, seres incompreendidos que moram no Tártaro embora se sintam com um pé no Olimpo. É preciso crescer para saber que não é o outro e suas diferenças de pensamento que nos ameaçam. Somos nós mesmos que nos ameaçamos.
Lembro quando criança, a facilidade que Mariáh tinha em fazer amigos. Preocupada com a possibilidade de ela se perder, ensinei-a aos dois anos o endereço de casa, o meu nome e o nome dela completo, o nosso telefone, o meu telefone celular. E recomendei:
- Nunca fale com estranhos.
Então, para não ser “estranha” aos outros, sempre que encontrava alguma criança nova na pracinha, Mariáh dizia o seu nome e o meu nome completos, o nosso endereço, o nosso telefone, a minha profissão e o que ela mais gostava. O novato, em geral, ficava boquiaberto, sem entender nada. Depois de uns dois minutos se apresentando, ela dizia:
- E agora, podemos brincar?
Nesse tempo, Mariáh não se achava uma semideusa. Não lamentava não ter dislexia como os semideuses de Percy Jackson têm. Parecia não se comparar aos outros. Queria apenas brincar e curtir a presença daquele outro, cujas diferenças não a ameaçavam.
Mas cresceu e passou a pertencer a um grupo. Vive no pequeno bando formado por ela, Amanda Ox e Clara dos Anjos. Todas semideusas, cercadas de suas certezas e convicções que vão formando sobre o mundo. Percebo um certo radicalismo em seus conceitos de certo e errado. Uma certeza de que há um futuro brilhante pela frente. Um futuro abençoado pelos deuses da sabedoria, da beleza, do amor, do poder e até da morte (que na minha opinião, muitas vezes, não as acompanham no presente).
Lembro que quando adolescente também agia assim. Considerava alienado quem não gostava de Legião, quem não gostava de new wave ou de heavy metal. Adorava filmes de terror, gostava muito de ler, de assistir peças de teatro, fazer teatro e de fazer aeróbica. Mas nunca deixei ninguém “no vácuo”. Os “alienados” eram legais. E eu os perdoava por serem diferentes de mim. Achava que um dia eles entenderiam como Legião, new wave, heavy metal, filmes de terror, peças de teatro e aulas de aeróbica eram legais. Só que não.
Eu continuo gostando dos meus grupos. Eles dos deles. Alguns continuam legais. Outros nem tanto. Eu já não sei sobre mim. Ando meio casmurra. Enclausurada no meu relógio, tentando administrar o meu tempo. Um tempo que faz com que eu abrace a minha filha grandona tentando descobrir nela cachinhos, bochechas e o cheirinho de uma menina que não temia o outro e suas diferenças. Que gostava de fazer amigos. Olhava nos olhos dos outros e, como Narciso, deixava-se flutuar para dentro do lago da vida.

Magali Simone de Oliveira é mestre em Letras pela UFSJ, jornalista, professora universitária, poeta, contista de textos não publicados, dona de casa e mãe de uma adolescente linda chamada Carolina.
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