Regina Helena Alves Silva
Um ano
Nesta semana, fiquei meio sem inspiração. Sem saber sobre o que escrever. Pensei em vários temas, mas nenhum me inspirou. No fim de semana, tivemos a maratona de uma festa na escolinha das crianças, ao mesmo tempo em que acontecia uma festa na nossa casa. Temos uma amiga que também adotou uma menina, Maria, que fez 1 ano e veio comemorar aqui em casa. Já tínhamos combinado isso quando a escola das crianças remarcou a festa junina para o dia 13 de julho. Festas juninas geralmente acontecem em junho, mas no caso das cidades brasileiras, que agora são governadas pela FIFA, festas e eventos não poderiam ser realizados perto da Copa das Confederações. Isso quer dizer que, junto com a venda de nossa soberania, mandamos às favas as nossas festas e atividades de lazer.
A prefeitura finalmente liberou a rua para que nossas escolas pudessem fazer suas festas e lá fui eu pra festinha de meus meninos, vê-los pela primeira vez dançar quadrilha e forró. Na festa, fiquei olhando para meus filhos. Eles corriam pela rua e dentro da escola, saiam atrás dos amiguinhos e queriam todos os brinquedos de uma “lojinha” que uma moça instalou por sobre um pano no passeio em frente a escola. Estalinhos, tubinho de bolhas de sabão, hélices enlouquecidas multicores, enfim tudo quanto é tralha possível e imaginária para deixar as crianças doidas.
Meus filhos, é claro, queriam de tudo um pouco e as tias fizeram as suas vontades como é sempre o papel das tias. Comeram também tudo o que podiam engolir num prazo de dois segundos, para pedir a próxima guloseima que passava nas mãos dos coleguinhas.
Eu olhando pra eles, ali naquela festa, eu filmando o Pedro dançando com a Bia e a Duda assustada junto com as amiguinhas, sem conseguir dançar. A Maria foi a única da turminha dela que conseguiu dançar. Eu olhava para as outras famílias com seus filhos e ficava pensando em como mudou tudo desde os meus tempos de infância. Eu olhava pra imensa diversidade que a escola dos meus filhos consegue aglutinar.
Vi os dois filhos negros adotados por um casal de amigos. Vi o amiguinho da Duda apenas com os avós, e depois a chegada dos tios dele, mas nada de pai e mãe. Vi uma das colegas que a Duda mais adora com sua mãe e a gente nunca viu o pai dela. Vi a outra amiguinha dessas duas com o pai e a mãe, que são duas pessoas com o melhor astral que já vi entre casais. Depois chegou o coleguinha do Pedro com seus pais que são evangélicos e, logo à frente deles, dois amigos meus que são do candomblé. Alem disso, os meninos cadeirantes, os com diversos tipos de síndromes e “diferenças”...
Enfim, estava ali na minha frente uma pequena amostra da imensa diversidade do que somos. Já falei isso aqui em minhas colunas, falei do quanto gosto da escola dos meus pequenos.
Mas o que eu pensei quando olhava para isso tudo foi sobre a história. Sobre isso do qual também já falei que é a história dos meus filhos. Minha família materna também foi à festa e isso nos diz de um elo que construímos com nossas gerações, que vai se estendendo até minhas crianças. Somos efetivamente uma família.
Ainda pensando nisso, saímos correndo da festa junina pra ir cantar “o parabéns” na nossa casa, onde acontecia a festa da Maria, filha da nossa amiga que pediu o salão de festas do nosso prédio “emprestado”. Duas comemorações estavam na festa na nossa casa: o aniversario e a efetivação da adoção oficial de Maria por nossa amiga.
A mãe de Maria me disse que, quando saiu oficialmente a adoção, ela teve acesso a história da mãe natural e ao motivo do abandono de Maria. Isso parecia criar um sentido para que, enfim, Maria que, a partir de agora, terá nome da minha amiga, pudesse reconstituir os elos de sua história com mãe biológica, que de agora em diante não fará mais parte de seus documentos oficiais.
Isso tudo vai se misturando em minha cabeça: meus filhos que têm dois nomes (o nome que foi dado pela família anterior e o que escolhemos) e a ansiedade da resolução pela justiça de que eles serão oficialmente meus filhos. Uma certa preocupação fica o tempo todo atrás da minha cabeça, porque tenho medo, tenho muito medo de acontecer alguma coisa que os tire de mim.
Não tenho acesso ao passado deles, só tenho aquilo que a Vara de Família nos informou através da ficha das crianças. Então, não sei como tudo pode acontecer.
Quando eu comentei um dia com alguém, que não me lembro mais quem é, que como historiadora eu tinha um incomodo de não acessar a historia de meus filhos, essa pessoa me disse que não sabemos de todas as histórias e que não acessamos a história nem de nossos filhos genéticos. Em princípio, concordei com ela, mas eu não estava dizendo disso, eu estava dizendo de um passado que ameaça porque pode voltar e tomar meus filhos de roldão.
A adoção tem essas questões que precisam que a gente tenha paciência e controle da ansiedade. Nesses dias, fez um ano desde que eles vieram passar o primeiro final de semana aqui em casa. Ontem meu amigo Roger ficou mostrando as fotos que fez deles quando vieram à nossa casa pela primeira vez. A Duda com uma carinha muito gorducha e um imenso barrigão de vermes variados. Ela era totalmente desconfiada e não gostava de dengo, nem de ficar no colo de ninguém. O Pedro com sua carinha assustada, mas ao mesmo tempo curioso com a casa e as pessoas diferentes que surgiram na sua vida.
Um ano se passou e nós ainda não somos as mães oficiais deles. Isso dá um certo medo de perder nossos filhos para o passado deles, que não sei qual é. Temos sempre uma ilusão de que, se soubermos do passado, poderemos minimamente ter alguma chance de decidir no presente e sonhar o futuro.
Eu já sou mãe deles no presente e já sonho com o nosso futuro como uma família. Já penso na escola para onde vão no ensino médio, no que será que vão escolher fazer depois disso, se vão pra universidade ou se vão querer outra coisa. Se serão músicos, cantores, dançarinos, artistas ou... engenheiros, advogados ou médicos. Como uma mãe-velha, sonho para eles tudo o que foi interditado para minha geração... Mas sonho com meus filhos ao nosso lado, enquanto vamos envelhecendo.
Quando chegamos ao abrigo, Sílvia, minha companheira, depois de algumas horas, se virou para mim e disse: são eles, são nossos filhos! Mas, mesmo sabendo disso logo que os conhecemos, mesmo já tendo um ano se passado desde esse momento e um ano de convivência com eles, ainda não temos oficialmente a documentação de que são nossos filhos.
Voltando à festa junina, eu olhava para eles e na minha filha eu reconhecia minha irmã mais nova, no meu filho a cara do meu pai. Como essas coisas acontecem? Como começamos a ver nos filhos adotivos um passado onde eles não estavam?
Talvez seja porque a história seja sempre e eternamente construção e com isso o passado se transforma a todo momento. Talvez porque o desejo seja tão grande que acaba por conformar nossa visão em torno de “parecenças” que existem em todos os lugares e pessoas.
Quando fui declarar meu imposto de renda deste ano, na parte “dependentes” pela primeira vez eu ia colocar filhos, mas... eles ainda não são oficialmente e, por isso, fui procurar a “caixinha” certa para clicar. Sem saber direito, tive que ver na minha comprovação anual de renda e lá constava: “menor pobre sob guarda judicial”. Isso me deixa sempre meio sem sentido...
Quando fui à Vara de Família, não queria ter um “menor pobre sob guarda judicial”: eu queria filhos. Sei como as coisas funcionam e sei o que significa tudo isso e que é preciso e necessário todos os tramites jurídicos. Não questiono nem discuto isso, só estou dizendo de como se sente tudo isso. Muita gente, quando eu digo que adotei dois irmãos, olha com admiração e diz: que gesto lindo, que grande ato de caridade! Não se trata de caridade, se trata de desejo, não se trata de generosidade, se trata de um ato quase que de egoísmo porque é um desejo.
Outra frase que sempre escuto é: "Como são lindos! Onde você os encontrou?"
Como assim, onde encontrei?
Nunca entendo as pessoas que me perguntam isso.
Mas outro dia eu perguntei a uma delas: como assim, onde eu as encontrei?
E a pessoa me respondeu: "Eles são lindos e a menina é uma bonequinha..."
Era claramente uma insinuação de que o “perfil” de meus filhos não é o das crianças que ficam nos abrigos.
Um dia desses, furiosa, acabei por responder: "Encontrei num supermercado!"
Se não fosse a idade de nós duas, as mães, nossos filhos poderiam passar tranquilamente por filhos biológicos, mas meus cabelos grisalhos sempre levam as pessoas a me imaginarem avó dos dois. Quando ficam sabendo que são filhos adotivos, olham pra eles e dizem: "A menina é a cara da Silvia e o menino é a sua cara!"
Sim, os dois se parecem muito com nós duas. Já tem um ano que eles chegaram e já tem um ano que eles se parecem muito com a gente. Mas também tem um ano que esperamos ansiosamente que nossa advogada ligue e fale: "Podem ir ao cartório e dar a eles o nome que vocês escolheram".

Regina Helena Alves Silva é professora da UFMG. Graduada em História e Ciências Sociais, com mestrado em Ciência Política e doutorado em História Social. Coordenadora do Centro de Convergência de Novas Mídias-UFMG, atua nas áreas de história social da cultura, comunicação e práticas sociais, novas tecnologias e cultura digital, culturas urbanas e formas de participação social. Atualmente, é mãe em tempo quase integral de Pedro e Maria Eduarda.
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