Regina Helena Alves Silva
Uma bandeira por Douglas, ou uma saudação aos "vândalos"
* Para Lívia de Tommasi
Uma mãe perdeu seu filho. Perdeu para uma morte anunciada. Uma mãe perdeu seu filho como muitas, muitas os perdem todos os dias. Por que escrever sobre esse filho? Por que sua morte foi anunciada?
Muitos disseram, antes dessa quarta-feira, 26 de junho de 2013, que tudo o que a direita queria era um cadáver. Um cadáver vindo das manifestações que continuam a encher as ruas de nossas cidades. Muitos de nós, preocupados, na terça-feira, falamos a centenas de jovens aglomerados no hall de entrada da reitoria da UFMG para eles pensarem e não produzirem o cadáver que as forças reacionárias deste país tanto queriam. Na quarta, um rapaz saiu de casa. Sua mãe disse a ele: "Não vá meu filho, a polícia disse que é suicídio ir, disseram que vão ter tolerância zero". O rapaz respondeu: "Preocupa não mãe, tá de boa!"
Douglas foi à manifestação. Nenhum de nós aqui sabe o que ele foi pedir. Ninguém sabe quais suas reivindicações. O que ele queria? O que pediu? Que cor tinha sua bandeira?
Douglas subiu no viaduto. Um viaduto que ninguém entende porque mata as pessoas que andam nele. Por que as pessoas caem dele? Outros já haviam caído. Outros já estavam no hospital. Ninguém sabe porque Douglas subiu o viaduto. Ninguém sabe porque tentou correr e pular justamente no lugar onde outros haviam caído.
Uma mãe viu um corpo cair. Uma mãe viu um corpo se debater, pernas e braços lutando contra o ar, tentando voar. Uma mãe viu um corpo caído no chão, muita gente correndo, socorro improvisado, maca sendo levada por muitas mãos, pessoas jogando pedras em quem tentava socorrer. Uma mãe não viu seu filho ser mais maltratado ainda até conseguir ser levado ao hospital. Essa mãe, nessa noite, viu o corpo sem vida de seu filho, no hospital.
Minha amiga Lívia, lá do Rio de Janeiro, fica me perguntando porque deixamos o rapaz subir o viaduto. Porque a manifestação passou num lugar onde alguém podia morrer? Eu tento às vezes, mas na verdade não sei responder.
Quando vi na internet a notícia da morte do rapaz que havia voado do viaduto, me deu uma urgência de ver meus filhos. Fui até o quarto deles e fiquei em silêncio, olhando eles dormirem. Antes, quando aconteciam coisas assim, eu ficava profundamente indignada. Naquele dia, eu senti uma dor profunda, uma dor que ainda não havia sentido em toda a minha vida de muitas perdas importantes. Tem apenas um ano que sou mãe, mas entendi, naquele momento, o que a minha avó sempre dizia da dor que era pensar em perder um filho. E uma mãe, naquele momento, havia perdido seu filho.
Olhei mais de perto meu filho Pedro, misturando sua história com a de Douglas. Eles nasceram no mesmo lugar, na periferia de uma grande cidade. Cada um deles conseguiu “fugir” de uma espécie de futuro anunciado: Douglas cresceu e tinha um emprego de metalúrgico, com seus 21 anos. Pedro ainda não cresceu, mas saiu do lugar onde não o queriam.
São frutos do crescimento desordenado das cidades, nasceram nas bordas, tinham poucas perspectivas mas, cada um a seu modo, conquistou seu lugar nessa cidade desigual.
Mas a mãe de Douglas perdeu seu filho!
A grande imprensa, sempre muito delicada, estava em cima dessa mãe, fazendo perguntas, quando ela recebeu a notícia da morte de seu filho. Ela declarou, muito calmamente: "A morte de meu filho não vai mudar nada!". Um monte de gente, no Facebook, criticou a grande imprensa por sua insensibilidade e julgou as palavras dessa mãe como uma fala desproposital em um momento de dor.
Nunca vi uma fala mais verdadeira. A morte de Douglas não vai mesmo mudar nada. Não foi ouvida. Só foi vista milhares de vezes, já que neste mundo de tudo registrar alguém filmou sua queda. Milhares de pessoas viram a morte de Douglas no You Tube, na Globo, em todas as telas possíveis.
Douglas “morreu na contramão, atrapalhando o trânsito”, planejado da disputa simbólica que se instaurou neste país. Não era o cadáver esperado, era só mais um.
Ele jamais seria chamado por nenhum governante para “representar a juventude da periferia” das nossas cidades. Por que? Porque Douglas nasceu no fim do mundo simbólico da nossa falta de percepção da cidade. Além dele, outros jovens também estavam naquela manifestação. Outros que também habitam o fim do mundo, mas, no nosso universo simbólico, eles são o medo que muita gente tem da “vingança dos pretos”. São aqueles seres que nossa sociedade nega serem visto como humanos. Não são filhos, são restos. Não têm família, só têm quadrilha. Grande parte da cidade desigual prefere não os ver. Prefere não saber deles. Só tem medo. Esses foram fotografados à exaustão e chamados de “vândalos”, criminosos, baderneiros.
Esses foram às ruas com suas bandeiras. Na hora que a manifestação chegou até a barreira que guarda o “território da FIFA”, esses olharam para aquilo, olharam lá no final da avenida o lugar onde eles se divertiam, torciam e ficavam nos finais de semana. Olharam e sabiam que não era mais deles, que não mais poderiam ocupar aquele espaço. Esses jovens foram em direção ao Mineirão, queimaram e destruíram lojas de patrocinadores da Copa. Esses jovens enfrentaram a polícia.
No dia seguinte, uma foto imensa na capa do principal jornal da cidade dizia que a cidade tinha perdido. A manchete, em letras garrafais, dizia “BH perde”, mas não dizia o que foi perdido. Uma foto colorida, com o fogo em contraste com um jovem negro sem camisa, com a cabeça enrolada e os braços em movimento. Para o jornal, essa era a imagem da tal derrota da cidade. Depois, mais fotos desse tipo passaram a povoar os jornais. Jovens, fogo, camisas enrolando as cabeças, tapumes como escudo, fogo, fogo... Eram esses os jovens que derrotaram a cidade? A cidade perdeu para eles? Perdeu o quê?
As mães desses jovens são as que mais choram, as que mais sentem essa dor surda e insuportável da perda de um filho. Este país esta em surto de amnésia, como chama a atenção minha amiga e colega Rosângela, dizendo dessas mães. Nos esquecemos, cotidianamente, das mortes desses meninos. E são eles os que mais morrem neste país. Morrem assassinados, torturados, violentados.
Desses jovens, nós conhecemos a bandeira, temos medo dela, temos pavor da vingança histórica de um povo sempre visto como sem humanidade, desde a escravidão.
Por que, então, Douglas não tem bandeira? Douglas é filho de uma parte deste país que não tem partido, que não é de esquerda nem direita, que não foi menino de bolsa, que não participou de projetos de ONGs, não se revolta, vive, larga os estudos e arruma um emprego pra levar dinheiro para “sustentar a casa”. Douglas até outro dia não devia pensar em se manifestar. Suas fotos postadas durante a manifestação são com a máscara do Anonymous e palavras do tipo “a hora é esta…”.
Douglas não tinha bandeira definida como os outros jovens que saíram nos jornais depois da manifestação. Mas esses dois segmentos da juventude deste pais saíram de seus lugares de formas diferentes. Os “vândalos” foram colocados por todos no lugar onde a cidade acha que o medo mora: na favela. Eles são os responsáveis pelo medo da boataria que tem se espalhado na cidade. O medo “da favela descer”. Esses têm uma bandeira histórica que é o fim do racismo, do preconceito, da estigmatização, da violência, da desigualdade.
Os Douglas são os jovens do purgatório. Se trabalham em empregos pouco remunerados ficam invisíveis. Se não trabalham, passam pra categoria de “vândalos” rapidamente. Todos foram às ruas pedindo “um país melhor”, mas os países e o significado de melhor são profundamente diferentes para cada um.
Douglas morreu e sua morte não vai mudar nada. Mas se alguma bandeira podemos hastear em meio às nossas perplexidades é a do direito a sermos diferentes, pensarmos diferente e irmos às ruas de formas diferentes. Mas a bandeira que nos une não pode ser a de identificar as diferenças e transformar uma delas em ameaça e perigo.
O que a morte de Douglas e os jovens chamados de “vândalos” nos mostra é que fomos convocados a responder as demandas do presente e essas ficaram visíveis para este mundo das imagens, dentro desse imenso conflito que se instalou neste país e interrompeu a temporalidade do consenso (Rancière). A bandeira desses jovens da periferia e das favelas nos obriga a tomar partido e tomar partido, a partir de agora, não significa mais ser do PT ou do PSDB, ou simplesmente inventar uma rede pra ser mais do mesmo.
Tomar partido, agora, significa radicalizar nossas posições e saber que “a única herança que vale à pena considerar é a que nos oferece a multiplicidade de formas de experimentação da capacidade DE TODOS, tanto no presente como no passado.” (livre tradução – Rancière)

Regina Helena Alves Silva é professora da UFMG. Graduada em História e Ciências Sociais, com mestrado em Ciência Política e doutorado em História Social. Coordenadora do Centro de Convergência de Novas Mídias-UFMG, atua nas áreas de história social da cultura, comunicação e práticas sociais, novas tecnologias e cultura digital, culturas urbanas e formas de participação social. Atualmente, é mãe em tempo quase integral de Pedro e Maria Eduarda.
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