Cristina Silveira
Valores humanos: o que a escola tem a ver com isso?
Depois da maravilhosa adesão ao workshop Valores humanos na educação, realizado em pleno feriado de 7 de setembro, quando nos deparamos com um salão lotado de educadores e pais buscando aprimorar a maneira de educar nossas crianças e adolescentes, senti a necessidade de compartilhar com vocês um pouco mais sobre esse assunto: a crise de valores humanos.
Afinal, o que nós, educadores, temos a ver com alguns fatos contemporâneos que tanto têm nos chocado? Violência contra idosos, jovens, crianças e animais? Professores sendo atacados dentro de sala de aula pelos jovens? Pais e avós sendo agredidos e assassinados por seus filhos e netos? O que temos a ver com a falta de decência de alguns políticos e governantes, que deveriam dar o exemplo para nossas crianças e jovens, mas, ao contrário, disseminam o mau caratismo, o mau uso do dinheiro público, a falta de ética ao governar nosso país!? O que temos a ver com a cultura do consumismo, o abandono psíquico das crianças, a ganância e o individualismo instalado nas mentes das pessoas, em prol de apenas “ser”?
Segundo as pesquisas, temos muito a ver com tudo isso! De acordo com o Índice de Desenvolvimento Humano – 2010, os educadores tem 24,7% de responsabilidade do repasse de valores para as crianças e adolescentes, logo após a família . O IDH define “valores humanos” como ítem fundamental no desenvolvimento humano, enfatizando que esses valores são guias de ação e influenciam o modo pelo qual as pessoas elegem suas prioridades e tomam suas decisões. Ou seja, valores impregnam comportamentos e normas sociais e estão na base do que as sociedades decidem fazer para se desenvolver.
A Lei de Diretrizes e Bases da Educação (9.394/96), é considerada por muitos educadores como a “Lei do Amor”, que postula acerca de dois dos mais importantes princípios de uma prática pedagógica pautada no amor: o respeito à liberdade e o apreço à tolerância, que são inspirados nos princípios de liberdade e nos ideais de solidariedade humana.
Outra orientação nesse sentido vem dos Parâmetros Curriculares Nacionais - PCNs para o Ensino Fundamental, que apresentam dois programas:
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De ensino (os Blocos de Conteúdos)
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De formação de valores e condutas (os Temas Transversais), que não são disciplinas, mas temas transversais, que perpassam por todas as matérias e ações da escola.
Ou seja, não há dúvidas de que temos muito a ver com isso e muito a fazer também! Mas como?
Platão nos ensina que o valor humano é algo intrínseco, alicerçado no caráter e construído através do amor. O valor realiza a pessoa e se apresenta no amor: pela beleza, pela justiça, pela honestidade, pela caridade, pela compaixão. Uma vez internalizado, se manifesta em qualquer situação vivenciada. Concluímos que os valores humanos são construídos no cotidiano, através do exemplo, dos modelos parentais e dos modelos educacionais, representados pelos professores, coordenadores, diretores e todos os envolvidos no processo educativo, que convivem com aquela criança, diariamente.
Como algumas crianças e adolescentes convivem mais com os professores do que com os seus próprios pais, uma vez que atualmente as escolas tem horários integrais e os pais só encontram seus filhos à noite, podemos avaliar que os educadores são, de fato, grandes modelos na contemporaneidade. Além disso, devemos nos lembrar de que muitas famílias estão desestruturadas e as crianças estão sem referencial parental.
Sabemos dos baixos salários, das péssimas condições estruturais, materiais e de todo o tipo de carências e faltas que encontramos em algumas escolas. Mas amor e compaixão não se encontram nesses itens. A moradia desses valores é, de fato, no coração e no caráter de cada educador. O valor reside na forma de olhar para cada aluno, sem destrutividade, sem rancor e sem preconceitos. Rubem Alves disse certa vez: “O olhar de um professor pode destruir uma criança”. Concordo com ele.
Como é importante o papel do professor! Eles são tão importantes que, sem eles, os gestores de uma escola não conseguem implantar esse conceito em valores humanos. O professor é imprescindível nesse processo. Belíssimo foi o testemunho da professora Sheila Leão no workshop, que só entendeu o valor de sua profissão, quando decidiu “ ver” cada aluno seu como único, como ser, e não apenas como mais um cérebro pronto para imprimir conhecimento. Mesmo numa turma de 52 adolescentes!
Mas, como sabemos, algumas escolas ainda priorizam o ensino em detrimento dos valores e insistem em imputar aos nossos filhos um massacre intelectual. Não se “ensina” valores no quadro ou com avaliações escritas, ensina-se valores no dia-a-dia, com ações, posturas e comportamentos que os nossos jovens possam admirar e se espelhar. Como isso acontece?
É imprescindível que haja ações práticas de cidadania, democracia, direitos humanos, ética, moral, que possam distinguir a criança e adolescente pela sua coragem de ser justo, mesmo em meio a injustiças, de ser honesto, mesmo diante da desonestidade, de ser tolerante, mesmo em meio aos conflitos sociais e políticos em nosso país. Valorizar a sinceridade, a amizade, a confiança, o companheirismo, o coletivo, o grupo, a união, a gentileza em prol do individualismo. É preciso criar oportunidades educativas para que a criança e o adolescente possam vivenciar as situações que os façam tomar decisões, ter atitudes e expressar as suas opiniões, desejos e sentimentos com liberdade.
Enfatizar a cultura de respeito à dignidade humana, para promover uma mudança radical e urgente de atitudes, pois estamos diante de uma sociedade marcada por preconceitos, por discriminação, pela não aceitação do direito de todos, pela não aceitação da diferença. Nota-se isso com o pouco caso de algumas escolas na aceitação das crianças de inclusão. Elas não querem “problemas”. Receber o diferente não se enquadra em valores humanos?
As escolas devem conscientizar que mudar é urgente!!! Precisamos nutrir nossas crianças e jovens de valores como dignidade, confiabilidade, honestidade, compaixão e liberdade, que residem no amor. Sejam exemplos, caras escolas, para que possamos formar seres inteiros e não apenas excelentes profissionais com um cognitivo brilhante!
Pais e responsáveis, escolham bem a escola de seus filhos! Observem, pesquisem, verifiquem: como são trabalhados os valores humanos nessa escola?
Fica a dica!

Cristina Silveira é psicanalista, psicopedagoga e educadora,
especialista em neuropsicopedagogia, arte-terapia e psicologia do trabalho. Tem formação em educação inclusiva (TDAH, autismo, Síndrome de Down) e atualização em artes plásticas e saúde mental. Idealizadora do Movimento Resgatando a Infância.
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