Regina Helena Alves Silva
A dor e a vaidade: como a humanidade se desumaniza
Minha semana começou com um debate sobre as manifestações de junho, a desmilitarização da Polícia Militar e os Direitos Humanos. Ouvi meu aluno Leo, aquele sobre o qual já escrevi uma coluna aqui, contar como foi torturado na prisão. Às vezes penso que este país não muda, por mais que tentemos mudá-lo. Essa mesma semana, no entanto, terminou com a incrível possibilidade de rever o filme Dzi Croquettes, sobre o grupo brasileiro que mais tumultuou nossas cabeças e decretou o fim da ditadura militar. Eles foram tão poderosos que conseguiram nos libertar da caretice e trazer as possibilidades de uma vida efetivamente mais libertária. Mas, como todo gesto ousado, eles não passaram para a história da cultura brasileira, que continua cheia de “antropofágicos-tropicalismos”, sempre no limite da borda, no último pedaço do salto que só os Croquettes ousaram dar.
Estreia
No meio dessas duas experiências, tive minha “estreia” como mãe com filha internada em hospital. Como tudo em relação aos nossos filhos, essa é uma experiência pela qual todos dizem já ter passado. Mas não tem jeito de entender a potencialidade dela sem vivê-la. Primeiro foi o susto de acordar e ver minha filha - que não pára quieta um minuto, fala igual a um papagaio com o repeat ligado e travado no máximo, pula e sobe em todos os pedaços possíveis da casa – completamente prostrada no berço, com as mãozinhas na barriga e gemendo. Levei ao banheiro, achando que era uma diarreia. Não era. Pus na nossa cama e, de repente, o travesseiro estava todo molhado. Só aí entendi que ela estava vomitando. Assim foi até chegarmos ao hospital e o médico colocá-la no soro. Ela só parou de vomitar por volta das 22h de um dia que havia começado as 5h30.
Hospitais são lugares com os quais tenho uma vasta experiência, mas aos infantis só voltei agora. Eu e Duda ficamos em uma semi-internação (não havia vagas para internação), com mais seis leitos no mesmo espaço e alguns outros em salas vizinhas. Conhecemos um monte de gente. A primeira que nos chamou a atenção foi Conceição, uma enfermeira com mais ou menos 1,50m de altura e uma disposição feroz de deixar as crianças saudáveis rapidamente.
Há poucas pessoas como ela neste mundo. Entendi, rapidamente, que Conceição era a campeã local em conseguir pegar uma veia pequenininha nas mãozinhas das crianças e colocar o soro sem fazê-las chorar muito. Eu a vi fazer isso pelo menos 20 vezes nesse dia e, em todas elas, a enfermeira pegou a veia de primeira e conseguiu terminar de colocar o acesso com as crianças já distraídas da agulha. Conseguia fazer uma “luvinha” de esparadrapo capaz de encantar os pequenos, que passavam a mostrar as mãos para todos os que se aproximavam deles. Conceição arrumava as camas com uma velocidade não usual em pronto-atendimentos hospitalares e tentava não deixar ninguém desconfortável. Sua hora de descanso foi sentida por todos nós, que estávamos ali, ao lado dos nossos filhos.
Eu quase escrevi "todas" em vez de "todos" na frase acima, mas, durante todo o dia, dois pais - dois homens - me fizeram acreditar novamente em uma parcela da humanidade masculina/pai. Um deles ficou com seu filho por horas, e segurava as mãos dele durante todas as aplicações da malfadada bombinha contra crises de asma/bronquite. O menino ficava assustado, não queria inalar o remédio, dizia que tudo ficava ruim depois. Mas o pai explicava, calmamente, que isso ia ajudá-lo a respirar e a ficar melhor. A mãe do menino apareceu duas vezes ao longo do dia e ficou menos de uma hora ao lado do filho. Nos minutos em que esteve lá, não largou o celular e não saiu do Facebook. Nem quando o menino pedia água ou pedia para ir ao banheiro. Ela fez tudo com o celular nas mãos.
Um outro pai ficou com o filho porque a mãe, desesperada, não conseguia ninguém para substituí-la em uma aula que tinha que dar em uma faculdade particular. Sem poder deixar os alunos, ela foi e voltou com o desespero de não saber o que o filho tinha. O pai ficou ali conversando e fazendo o filho ficar mais confortável, com toda a febre e mal-estar que sentia. Era um cara bem legal, com seus longos dreadlocks. Ele tem o famoso “estereotipo” que a polícia marcou para “pegar” entre os manifestantes do 7 de setembro.
No mais, eram mães. Dezenas delas, com seus filhos no colo, desesperadas com 40 graus de febre, convulsões, suspeitas de gripe H1N1 e ataques de falta de ar. Uma ficou ao meu lado, cuidando da filha Victória e tentando animar a Duda ao mesmo tempo. Perto das oito da noite, eu dei por conta de que ela não havia comido nada durante todo o dia. Saí para comprar algumas coisas e perguntei a ela o que queria. Ela pegou a carteira e, quando abriu, vi que havia apenas uma nota de R$ 5. Ela pensou um pouco e falou: "Se tiver uma garrafa de água, você traz pra mim". A filha estava mais grave do que a Duda, tinha muita febre, vômitos e diarreia com sangue. E ela ali, ao lado da menina, sem comer o dia inteiro, e sozinha.
Na volta, trouxe biscoitos, suco e água para ela. Mas ela não estava. Estava um rapaz, com os olhos vermelhos. De longe, pensei ser por causa da Victoria, que gemia na cama, se contorcendo de febre. Chegando perto, entendi que era por causa da bebida. Quando coloquei os pacotes na mesinha em frente da cama de sua filha (ele era o pai da Victória), o cara me olhou de cara feia e perguntou: "Pra quem é isso?" Respondi: "Para a mãe da Victória". Ele ficou bravo e resmungou: "De onde ela tirou grana pra tudo isso?" Eu não respondi e arrumei tudo na mesa. Ele perguntou quanto ela tinha me dado e eu respondi que nada. Aí ele ficou uma fera e disse: "Não precisamos de esmola!". Eu já estava bastante cansada pra responder à altura. Só olhei, com um solene desprezo, e falei que não dava esmola a ninguém. Ele ficou mais 5 minutos e foi embora.
As mulheres que estavam no hospital eram assim. Ficavam ao lado dos filhos, sem comer, quase sem ir ao banheiro e sem beber água, até saber o que eles tinham. Antes de a Victória ficar ao nosso lado, aconteceu um reboliço na pequena sala e assim conheci Amália. Chegou uma maca com uma criança, dois homens empurrando e uma senhora, que aparentava ter mais de 60 anos, caminhando ao lado, carregando uma enorme sacola. Quando colocaram o menino na cama ao lado, todas as crianças se assustaram com o som que ele fazia e com a sua condição. O garoto de 14 anos tinha o corpo completamente retorcido, traqueostomizado e, aparentemente, estava sufocando. Era tudo muito horrível. A Duda até reagiu de sua prostração e começou a chorar, perguntando o que estava acontecendo.
O menino emitia sons horríveis e espumava pelo orifício da garganta. As enfermeiras correram e fizeram vários procedimentos para depois alimentá-lo por meio de uma sonda no estomago. A criança da outra cama gritou para a mãe que o menino tinha um buraco na barriga.
O resumo dessa historia trágica é Amália. Ela não é mãe dele, ela tem uma creche. Uma creche de crianças assim: nenhuma anda, fala ou tem condições de fazer algo sozinha. Quis fazer isso depois que se aposentou. Amália ficava ali, sentada ao lado daquele menino, cuidando dele, acariciando, limpando... Quando a médica foi examiná-lo, Amália o pegou no colo e o carregou sozinha para a sala de exames. O menino era grande e Amália pequena, cansada e com uma enorme sacola.
A experiência com o hospital e de ver minha filha ali, deitada, sem reagir, as mulheres e seus filhos, as enfermeiras e os médicos - que foram bacanas demais - me fizeram pensar de novo na questão dos médicos estrangeiros, nos planos de saúde e no SUS, enfim, no sistema de saúde deste país. Eu estava ali, num hospital infantil, com meu plano de saúde, e vi uma placa na parede: "Contrata-se pediatra".
Quase não há pediatras em BH e acho que essa situação se repete em quase todas as nossas cidades. Os médicos que cuidaram de minha filha foram ótimos e atenciosos, mas entre eles havia apenas um jovem. Todos os outros já tinham mais de 45 anos.
Por que não temos mais médicos para algumas especialidades hoje em dia? Alguns me respondem que são especialidades que “não dão dinheiro”. Aí vem logo um rosário de justificativas de que os médicos não têm condições de trabalho, que não têm suporte do governo, que não conseguem trabalhar em determinados lugares das cidades e do país. Concordo que precisamos de uma efetiva política de saúde neste país e que ela não pode consistir apenas em dar dinheiro público a “cooperativas” de planos de saúde, que nos exploram e nos tratam mal. Hoje em dia, ter plano de saúde não nos exime de enfrentar longas filas, esperas intermináveis e falta de vagas nos hospitais. Isso é inquestionável e não será também resolvido com médicos estrangeiros, embora eu os ache muito bem-vindos e quantos bons médicos quiseram vir para cá, por mim, que venham logo.
Mas isso não me responde porque alguns não querem determinadas especializações. O filho de uma vizinha, que conheço desde menino, cresceu falando que queria ser cirurgião de crianças. Entrou no curso de medicina da UFMG e continuou a falar isso. Outro dia, eu o encontrei e brinquei: "Agora tenho dois filhos e, se precisar, vou te procurar". Ele respondeu: "Resolvi fazer cirurgia plástica".
A coluna de hoje termina com uma pergunta que não quer calar, desde que inaugurei minha vida de mãe-hospital: o que esperar de uma sociedade onde há mais médicos para colocar silicone nos peitos de nossas filhas do que para salvar suas pequenas vidas?

Regina Helena Alves Silva é professora da UFMG. Graduada em História e Ciências Sociais, com mestrado em Ciência Política e doutorado em História Social. Coordenadora do Centro de Convergência de Novas Mídias-UFMG, atua nas áreas de história social da cultura, comunicação e práticas sociais, novas tecnologias e cultura digital, culturas urbanas e formas de participação social. Atualmente, é mãe em tempo quase integral de Pedro e Maria Eduarda.
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