top of page

Regina Helena Alves Silva

Um dia dos pais

Semana agitada essa. Voltei a dar aulas depois de um semestre de férias-prêmio. Férias tiradas para que eu me “acostumasse” melhor ao fato de agora ter dois filhos em casa. Já faz um ano que eles chegaram e tudo passou tão depressa que nem me dei conta de que as tais férias tinham se acabado. 

Nesta semana, a questão aqui foi o tal do Dia dos Pais. A discussão de sempre das datas comemorativas-consumistas, que fazem a festa dos shopping centers, é menos agitada para os pais do que para as mães. Parece que devemos gastar mais com as mães do que com os pais.

Tem mais ou menos 10 anos que meu pai se foi e isso me liberou dessa quase “obrigação” que viraram essas datas, de termos que sair, achar um presente, acordar cedo e nos dirigir à casa do pai. Mas, neste ano, tudo mudou quando a escola dos meus filhos pediu uma foto deles com o pai para preparar um presente para o Dia dos Pais. Com tal demanda, acabei a semana inteira com duas urgências que se impuseram: as lembranças e o tempo presente.

As lembranças

Meu pai. Tenho profundas lembranças dele, a grande maioria tumultuada e com sentimentos imprecisos. Minha primeira lembrança é da minha mãe me chamando no quarto dela depois de alguns dias em que eu não via meu pai em casa. Ela me mostrou duas malas e me pediu pra levá-las até a esquina da rua onde morávamos. Eu tinha 11 anos e quando cheguei na esquina vi meu pai. Ele pegou as malas e foi embora sem dizer nada. Só um tempo depois entendi que ele tinha ido embora. 

A partir daí, passei a viver num mundo meio surreal. Todos tinham pai em casa naquela época e o meu eu não sabia onde estava. Só o vi novamente uns dois anos depois, quando meu irmão morreu. Depois, ficamos muito tempo sem vê-lo. Como não era “bem vista" uma mulher desquitada naquela época, minha mãe dizia que era para não falarmos para ninguém que meu pai tinha ido embora. Todo Dia dos Pais, a gente fazia algo para ele na escola e, quando chegava em casa, não tinha para quem dar.

Essa é uma longa história que não tem sentido aqui. Para aqueles que ficaram preocupados, meu pai reapareceu depois e passamos a ter uma convivência bastante instável, com altos e baixos, ele chegou a morar na minha casa um tempo e nos tornamos amigos. E como disse meu amigo Roger Dutra, em outra coluna aqui no BH DA MENINADA, se virou amigo, pai deixou de ser. Mas fomos bons amigos até sua morte. Sinto falta dele até hoje, principalmente nos jogos do Galo.

Tempo presente

Meus filhos chegaram em casa na semana passada e falaram sobre a tal foto. Eu disse à Sílvia, com o meu jeito rápido de resolver tudo sem pensar muito, quando a coisa é complicada: eles não têm pai, então não temos foto. Disse isso, mas fiquei pensando em como seria para os dois na escola, com todos os coleguinhas fazendo um presente para o pai e eles fariam o quê?

Sílvia sempre me diz que eles têm pai. Eu sei que têm, mas ninguém sabe quem são e isso já é bastante complicado nessas horas. Eles tinham um pai que os registrou, mas também não se sabe quem é. Engraçado que muita gente acha estranho que eles têm duas mães, acham que é muita mãe, mas na verdade eles tem muitos pais mas nenhum presente. Voltando à questão da fotografia, conversamos com a professora e ela nos disse para mandar uma foto de nós quatro: eu, Sílvia, Pedro e Duda.

Futuro

Meus filhos chegaram em casa com dois embrulhos com fitas. Quiseram entregar os “presentes” do Dia dos Pais na sexta-feira, na hora que passaram da porta de casa.

Duda abriu seu presente e nos mostrou: uma sacolinha com uma pintura feita por ela. Mostrou várias vezes, abria e fechava o pequeno envelope de papel pardo e retirava a sacolinha. Mostrava, toda orgulhosa, e colocava de novo no envelope. Depois ficou com ela um tempão, abraçando o presente.

Pedro abriu o embrulho e apareceu um porta-retratos com a foto que mandamos de um lado e do outro um desenho que ele fez da nossa família.

É a coisa mais linda... Ele fez duas crianças e duas mulheres grandes. No caso da Sílvia, ele fez uma mulher 

comprida, no meu uma mulher gordinha. Eu fiquei toda feliz e ele falou: "É você mamãe, você é maciinha!"

Quando ele viu nossa reação, ficou tão feliz, mas tão feliz que repetiu dezenas de vezes: a mamãe Silvia é rosa, a mamãe Lena é laranja e aqui sou eu e ali a Duda.

Naquele momento, tudo o que vinha me preocupando durante toda a semana sumiu. São assim as crianças, elas são mais maduras e sábias que nós.

 

Dia dos Pais

De novo, meu amigo Roger Dutra entra em cena. A família dele nos convidou para o churrasco do dia dos pais na casa da irmã dele. Achei uma coisa bastante importante ir com meus filhos, porque seria uma experiência nova para todos nós. Meus filhos tiveram pais, mas não os têm mais porque os que tiveram os abandonaram ou os maltrataram.

Ir ao churrasco foi importante porque lá estavam o pai do Roger, que está casado com a Alzira (mãe do Roger) há muitos e muitos anos, um casal daqueles que pouco se vê nos tempos atuais. Estava lá o Roger, um pai solteiro que criou seu filho. Estava lá a irmã do Roger (dona da casa) com o marido e a filha e também estavam lá os filhos do primeiro casamento do cunhado do Roger. Três pais com seus filhos, três pais que criaram e criam seus filhos.

A casa que fomos da família do Roger é em Contagem. Depois de um tempo, meu pai se mudou para uma casa com quintal em Contagem. Eu e minhas irmãs íamos pra lá no Dia dos Pais. Churrasco, cerveja, muita conversa fiada sobre futebol e política. Meu pai cozinhava maravilhosamente bem e sabia manter uma cerveja gelada. Eu não gosto muito de cerveja, mas bebia várias com ele naquela época. Ficávamos o dia inteiro comendo e tomando um pouco de cerveja. Na casa da irmã do Roger, tudo foi também lembranças. Comemos como era na casa de meu pai, bebemos como era na casa de meu pai e nos divertimos como era antes.  

Fiquei vendo meus filhos correndo, subindo no monte de areia, jogando brita pra cima, tentando fazer alguns balões virarem pipas. Eles passavam correndo pelas mesas e pegavam pedaços de carne, tomavam suco e depois corriam ate a moto estacionada na garagem e subiam nela, inventando que estavam indo para o “hotel fazenda” ou para a praia.

Foi o melhor primeiro Dia dos Pais de verdade que essa família já teve. E isso me fez ficar um pouco lá sentada, tentando entender essa figura paterna tão presente e tão ausente ao mesmo tempo. Como eu já disse, só consegui lidar com todas as questões que envolviam a história do meu pai quando me tornei sua amiga. Para ser amiga, deixei de ser filha. Assim nos entendíamos muito bem em todas as nossas alegrias, brigas e milhares de desavenças. Éramos muito diferentes, sempre compreendemos o mundo de lugares e pontos de vista totalmente antagônicos. Então, meu pai foi um exercício cotidiano de lidar com a diferença, um aprendizado de como ter um amigo com o qual em quase nada concordava.

Para a minha geração, pai era uma figura que devíamos respeitar, era alguém a quem devíamos obediência. Não me lembro de meu pai no curto período de tempo em que foi meu pai ser assim. Não me lembro dele ralhando, gritando ou batendo em alguma de nós. Pode ser que não tenha sido assim, mas é assim que me lembro. Me lembro de um pai alegre, brincalhão e sem nenhuma, absolutamente nenhuma, responsabilidade.

Me lembro de algumas brigas e da tristeza de minha mãe. Mas não me lembro de tristeza dele no tempo em que foi pai. Depois, no tempo que fomos amigos, me lembro de inúmeras. Depois ele era um amigo triste, às vezes amargurado, mas continuava sem nenhum tipo possível de responsabilidade.

Depois meu pai se casou de novo. No início, eu fui totalmente a favor dessa nova vida que ele queria muito. Sua mulher tinha um filho pequenino que eu adorava ver nos finais de semana. Depois nasceu o filho do meu pai com a sua mulher. Era meu novo irmão. Mas com ele eu não convivi quase nada e nunca mais o vi depois da morte de meu pai. Ele se parecia com meu pai e, segundo meu pai, se parecia comigo... nunca achei....

No final da vida, eu e meu pai nos afastamos um pouco, só um pouco, mas nos afastamos. Eu não conseguia me dar bem com a mulher dele. Tem coisas que não são para acontecer e isso para mim não tem nenhum tipo de problema. De vez em quando, meu pai aparecia, geralmente quando tinha algum tipo de problema e assim terminamos nossa história meio atrapalhada, meio sem sentido, meio sem muitas conclusões.

Hoje me lembrei muito dele. Não pelo Dia dos Pais, mas pelo dia que passamos ali naquela casa. Hoje ali, naquele lugar, eu me senti novamente na casa de meu pai, um amigo que por um instante voltou a minha memória como pai.

Pais são figuras masculinhas que nos geraram, são figuras essenciais nessa nossa sociedade tão complexa e normativa. Mas cada um de nós os “formata” dentro das possibilidades que temos. E muitos de nós os inventa e reinventa o tempo todo como fiz, novamente com o meu, neste Dia dos Pais.

Espero que meus filhos quando crescerem um pouco mais e entenderem suas histórias, possam lidar com as figuras de seus pais da mesma forma que encontrei para lidar com a do meu. Nunca tive rancor, amargura ou raiva. Aprendi a olhar pra quem não conseguiu e entender que era impossível pra ele conseguir, estava fora de todas as forças humanas que ele podia reunir. Meu pai e os pais dos meus filhos têm algo em comum: não havia lugar na vida deles para existirem filhos.

Regina Helena Alves Silva é professora da UFMG. Graduada em História e Ciências Sociais, com mestrado em Ciência Política e doutorado em História Social. Coordenadora do Centro de Convergência de Novas Mídias-UFMG, atua nas áreas de história social da cultura, comunicação e práticas sociais, novas tecnologias e cultura digital, culturas urbanas e formas de participação social. Atualmente, é mãe em tempo quase integral de Pedro e Maria Eduarda.

* Este é um artigo autoral, que reflete as opiniões do colunista e não do veículo. O website BH DA MENINADA não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações, conceitos ou opiniões do (a) autor (a) ou por eventuais prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso das informações contidas no artigo.

© 2012 by Daniela Mata Machado Tavares. Todos os direitos reservados

contato@bhdameninada.com

bottom of page